antirracismo

Nude para quem?

Vamos aos fatos?! O Brasil é o país com mais pessoas negras fora da África no mundo. 56% da população brasileira se autodeclara preta ou parda. Isso significa que são mais de 100 milhões de consumidores negros.

Mas se você já entrou em uma loja procurando um produto na “cor nude”, posso apostar que o que você encontrou foram produtos nas cores bege, rosa ou pêssego.

Estou errada?

Se você sempre achou isso natural, não te culpo. Afinal, foi lá na pré escola que aprendemos que o lápis “cor de pele” é aquele rosinha claro, que convenhamos, está longe de representar as tonalidades de todas as peles brasileiras.

Pode até parecer besteira problematizar o lápis cor de pele. Mas provavelmente esse foi um dos primeiros momentos em que crianças negras perceberam que há algo de “errado” em si mesmas.

Mas com certeza não foi o último! Lingeries, sapatos, roupas, maquiagens, esmaltes… tudo projetado para combinar com a cor de pele “universal”: a pele branca.

Basta uma rápida pesquisa no Google para entender que a definição de “nude” é relativo à nudez, despido e descoberto. E se procurarmos mais a fundo para entender o que representa o “nude” na moda surgem significados como “coloração que se assemelha aos tons da pele”.

Sendo assim, fica evidente que um conceito que surgiu para ser “transparente”, na realidade invisibiliza apenas as pessoas negras que são excluídas de um mercado que trata mais da metade da população como um nicho.

Essa pode até ser uma realidade que assusta, mas não surpreende. Afinal, assim como outros setores, a beleza e a moda também são impactados com o racismo estrutural que considera o branco como referência e organiza tudo em volta dele, enquanto todos os outros se esforçam para se encaixar em um padrão inalcançável.

Mas isso não acontece só quando falamos sobre o conceito de nude, mas sim em tudo que é relacionado a beleza e bem-estar de pessoas negras. Um exemplo disso é o mito de que corpos negros são mais resistentes e que por isso não precisam de cuidados.

Quem nunca ouviu a frase “Você é negra, sua pele é boa, nem precisa de tratamentos”?

Pensamento que além de retrógrado e anticientífico é racista.

A justificativa de que “produtos específicos para pessoas negras não vende” está longe de ser uma realidade.

Então, o que falta para esse potencial ser representado e traduzido no mercado?